sexta-feira, 1 de outubro de 2010

test drive

Saiu numa edição do Financial Times (maior jornal sobre economia do mundo).

E-mail da rapariga:

"Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano. Tem algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas?
Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não vão me fazer morar em Central Park West.
Conheço uma mulher (da minha aula de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente.
Então, o que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correta? Como eu chego ao nível dela? (Raphaella S.)"


Resposta do editor do jornal:

"Li sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação.
Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou tomando o seu tempo a toa...
Isto posto, considero os fatos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que você procura), o que você oferece é simplesmente um péssimo negócio.
Eis o porquê: deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas : Você entra com sua beleza física e eu entro com o dinheiro.

Mas tem um problema.
Com toda certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará aumentando.
Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. E você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre aumenta!
Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando você se comparar com uma foto de hoje, verá que virou um caco.
Isto é, hoje você está em 'alta', na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.
Usando o linguajar de Wall Street , quem a tiver hoje deve mantê-la como 'trading position' (posição para comercializar) e não como 'buy and hold' (compre e retenha), que é para o quê você se oferece...
Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um 'buy and
hold') com você não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim!
Assim, em termos sociais, um negócio razoável a se cogitar é namorar.
Cogitar...Mas, já cogitando, e para certificar-me do quão 'articulada, com classe e maravilhosamente linda' seja você, eu, na condição de provável futuro locatário dessa 'máquina', quero tão somente o que é de
praxe: fazer um 'test drive' antes de fechar o negócio...podemos marcar?"

(Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA)"

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

o teu beijo


beijo de mensagem
abreviada ou prolongada.
beijo de aeroporto
significa muito, sabe a pouco.
beijo de motel
mistura de fluidos e mel.

com sabor morango em passo de tango
beijo de mãos dadas e bocas ávidas.

beijo que se sobrepõe à ausência
que se interpõe com frequência
anulador de carência
catalizador de turbulência.

beijo, invulgar beijo o teu.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Autobiografias


não gosto de autobiografias.
normalmente são racionalizações efectuadas à posteriori.
colocam retrospectivamente o passado do ponto de vista do presente.

ora uma vida faz-se de uma pluralidade de trajectórias possíveis onde o resultado final é concerteza o produto de decisões individuais, mas também de circunstâncias, de acidentes extremos, do improviso.

todos nós já nos pusemos a imaginar o que teria sido a nossa vida se não tivéssemos tomado certa decisão, conhecido certa pessoa, escolhido determinado local para viver ou trabalhar.

isto tudo a propósito de uma certa situação onde fiz a retrospectiva da minha vida para outra pessoa... claro que se omite o que nos parece ser mau e enaltece o bom... não só intencionalmente mas também porque a nossa própria memória já se encarregou de diluir o que não serve e sublinhar o que pode ser útil.

deve ser a isso que se chama "dourar a pílula" e constitui uma forma de aumentarmos a nossa auto estima.

em conclusão diria que qualquer autobiografia é apenas parte de uma realidade que foi filtrada, amassada e reeditada para um certo propósito, o que se torna provavelmente ainda mais evidente nas biografias autorizadas ou não.
...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

conhecer-te


o que o teu olhar distraído e vago insinua
mais intimo que o teu outro lânguido ensaia
tal como entre cortinas de perfumes sintéticos
embriaga-me apenas a pura essência de fêmea.

muito mais que o teu sorriso franco e aberto
prendem-me as nuances volumétricas desses lábios
feitas de pequenos movimentos sincronizados
por estímulos que transpõem defesas imaginárias.

sentiste-me? queres saber.
como se não importasse a transpiração da respiração
que tropeça no embargo da voz.
como se não visse o lençol que se enreda nos dedos
à medida que os teus punhos se fecham.
como se não soubesse da lassidão quente
que vem após humidas contracções.

dizes que não te conheço
e no entanto preferia desconhecer-te
para te conhecer de novo.

.

terça-feira, 1 de junho de 2010

moral biológica

se consultarmos um padre, um psicanalista ou um pensador racional todos responderão que ter uma conduta moral é lutar contra os seus apetites, reprimir as suas pulsões e controlar os seus instintos.

portanto em oposição à vivência actual assente na satisfação imediata dos impulsos, cada vez mais escudada no sentimento de que a moral é de origem biológica e do domínio do inato.

seriamos assim generosos por instinto,fieis por natureza, sinceros por incapacidade de mentir, donde não haveria mérito em se comportar de forma moral, não mais do que comer quando temos fome. o avaro, o delinquente e o invejoso apenas teriam que responder que estão a fazer o que o seu metabolismo ordena.

felizmente a moral não é nem uma luta constante contra os instintos nem os instintos estão em roda livre. assim, quando renunciamos a seduzir a mulher de um amigo reprimindo um desejo sexual (igualmente biológico) trata-se de uma virtude simultâneamente moral e biológica: estamos a cuidar da nossa integridade e do equilíbrio das forças que em nós existem.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

L´hôtel Particulier

Au cinquante-six, sept, huit, peu importe
de la rue X, si vous frappez à la porte
D´abord um coup, puis trois autres,
on vous laisse entrer
Seul et parfois accompagné.

Une servante, sans vous dire um mot,vous précède,
Des escalier, des couloirs sans fin se succèdent
Décorés de bronzes baroque, d´anges dorés,
D´Aphrodites et de Salomés.

S´il est libre, dites que vous voulez le quarante-quatre,
C´est la chambre qu´ils appellent ici de Cléopatre
Dont les colonnes du lit de style rococo
Sont des nègres portant des flambeaux.

Entre ces esclaves nus taillés dans l´ébène
Qui seront les témoins muets de cette scène
Tandis que là-haut un miroir nous réfléchit,

Lentement j´enlace Melody.

Serge Gainsbourg

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Um só sentido

sala colorida, luz indefinida
ângulos difusos, cantos obtusos
roupa espalhada, parte rasgada
pele contra pele, em carrocel
palavras gemidas, outras faladas
sensações potenciadas muitas adivinhadas.

mãos que se agarram, a nádegas e seios,
línguas que se tocam, molham e moldam,
momento de corpos em movimento,
sexos que tocam, se unem e se fundem.

presença de espírito corrompida
por sensações sinusoidais
eu sou-te, tu és-me, nós somo-nos
alto e baixo invertido, tudo sentido.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Arte

criticas mais populares à arte:

atentado ao passado
pornográfica
deslocada
impura
anormal
indigna
feia
trivial
muito cara
incompreensivel
degradante
injusta
inutil.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

busca

será um por do sol tão belo
que outro o não seja mais?
haverá algo tão perfeito
que não possa ser melhorado?
desejo moldado nas mãos da expectativa.
insaciável !

perfeição não existe,
apenas a sua antecipação,
perfeição não existe,
apenas a sua busca.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

sentimento oceânico

freud em " o futuro de uma ilusão" analisa a religião como uma forma de regressão do adulto ás emoções da infância. a submissão dos homens para com deus é como a criança que se confronta com a sua fragilidade. face aos escolhos da vida recorrem ambos à figura paternal, o pai no caso da criança e deus no caso do adulto, para buscar apoio e protecção.

sendo sem duvida redutor assimilar a religião a uma regressão psicológica, alguns místicos virados para a espiritualidade oriental evocaram um outro estado de consciência, o sentimento oceânico, uma impressão estranha de fusão com o cosmos, onde a consciência se dissolve num grande todo. muitos ocidentais new age partiram para a índia esperando efectuar a experiência do sentimento oceânico praticando o misticismo, com muitas drogas à mistura.

finalmente as neurociências tentaram ver se havia alguma relação deste sentimento com algum estado particular do cérebro e conseguiram medir em pessoas que praticam a meditação transcendental uma queda da actividade do cérebro no córtex parietal que... adormece. ora esta área é responsável pela orientação espacial e pela percepção da posição relativamente ao ambiente circundante. a inibição desta área do cérebro favorece assim uma espécie de sentimento de indiferenciação entre o ser-se e o não ser-se.

os homens sempre muito criticados pelo seu comportamento pós-coito, de não conversarem e de adormecerem com facilidade têm aqui um belo álibi..." porque querida adorei, foi perfeito, fiquei numa espécie de êxtase transcendental, uma espécie de sentimento oceânico de fusão contigo..."

terça-feira, 24 de novembro de 2009

adultos...

a impaciência com que os miúdos esperam o dia do seu aniversário não tem paralelo senão no receio dos adultos vendo chegar o seu. paradigma de uma juventude que começa cada vez mais cedo e acaba cada vez mais tarde e uma nova velhice em que se é idoso sem se ser velho.

no universo profissional, os recursos humanos só reconhecem duas categorias - júnior e sénior - , como se fossemos sempre ou demasiado jovens ou demasiado velhos para trabalhar.

o que sobra para a fase adulta é uma faixa cada vez mais reduzida, e é nela que se descarrega todo o peso da existência, num punhado de anos todas as frentes se abrem simultâneamente, é preciso uma casa, fazer carreira, criar os filhos, entregar-se aos tempos livres, fazer viagens maravilhosas, pensar no futuro e em si próprio tudo enquanto se gere o quotidiano, em resumo é preciso triunfar na sua vida.

mas quando é que nos sentimos adultos, quando é que atingimos a maturidade?

aventureiros tardios e pais precoces, cada um terá a sua história para contar, mas provavelmente não andará longe de uma resposta em torno da triologia: experiência - relação com o mundo; responsabilidade - relação com os outros e autenticidade - relação consigo próprio.

experiência não é ter visto ou feito tudo, é pelo contrário ser capaz de fazer face a situações que nunca vivemos, situações novas ou excepcionais, ser capaz de integrar novos acontecimentos em grelhas de interpretação, pegar no fio de uma meada.
responsabilidade não apenas dos seus actos, mas responsável pelos actos de outros, ou seja sentir deveres e obrigações mesmo em relação àqueles que não pediram nada, filhos, alunos, colegas mais novos...
ser autêntico "tornares-te naquilo que és", nada mais difícil, encontrar o caminho entre a plenitude do ser-se e o vazio existencial.

reconciliar-se com o mundo, com os outros e consigo próprio não é uma tarefa simples e requer mais tempo e dedicação, e em face dela é natural que de vez em quando possamos sentir-nos cansados de ser adultos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

lilith

lilith é referida como a primeira mulher do bíblico adão, acusada de ser a serpente que levou eva a comer o fruto proibido. no folclore popular hebreu medieval, ela é tida como a primeira esposa de adão, que o abandonou, partindo do jardim do éden por causa de uma disputa sobre igualdade dos sexos, chegando depois a ser descrita como um demónio.

de acordo com certas interpretações da criação humana, reconhecendo que havia sido criada por deus com a mesma matéria prima, lilith rebelou-se, recusando-se a ficar sempre em baixo durante as suas relações sexuais. na modernidade, isso levou à popularização da noção de que lilith foi a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.

assim dizia lilith: ‘‘porque devo deitar-me em baixo de ti? porque devo abrir-me sob teu corpo? porquê ser dominada por ti? contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’’ quando reclamou de sua condição a deus, ele retorquiu que essa era a ordem natural, o domínio do homem sobre a mulher, dessa forma abandonou o éden.

lilith, a primeira femininista de que há registo... ou uma questão de posição.
foto de pecado original, os meus agradecimentos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

outras ideias

lembrar-se de uma anedota num enterro, imaginar dar uma facada na pessoa com que se está a discutir, ver-se a deixar cair um bebé que se tem ao colo, desejar a morte a alguém próximo... não tenham receio não sou psicopata, mas se pensamentos deste género já lhe passaram pela cabeça não se pode concluir que seja um monstro por isso.

"pensamentos intrusivos" é o nome que lhes deram. mais um processo banal dizem. pensamentos intrusivos circulam como relâmpagos nas cabeças de cada um de nós. apenas se se tornarem ideias fixas ou obsessivas podem gerar nalgumas pessoas angústia e culpabilidade.

durante muito tempo essas obsessões culpabilizantes foram interpretadas como obra de satanás, depois com a psicanálise a expressão do nosso inconsciente, mais recentemente estes pensamentos intrusivos são vistos como o resultado da visualização daquilo que receamos mais, portanto um simples mecanismo de alerta.

"face a uma ideia penosa, pensa imediatamente: tu és uma ideia e não aquilo que representas" como Epiteto aconselhava há já 2000 anos.

claro falta o sexo... deixa ver, pensamentos intrusivos relacionados com o sexo...

ps. profundos agradecimentos à Paula dos Desejos Intimos, pela sugestão da foto.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

menus

no restaurante joga-se em geral um cenário imutável, ritmado por um guião canónico. actores (os clientes) sentam-se à mesa, esperam que o actor servidor traga o menu para efectuar o pedido. o menu proposto é composto por entradas, pratos principais, sobremesas e bebidas. terminada a refeição, pedem a conta, pagam e saem do restaurante, deixando ou não uma gorjeta.

este conjunto de acções faz parte dos guiões que modelam as condutas e enquadram o pensamento. pode evidentemente mudar de um país para outro, por isso hesitamos quando estamos no estrangeiro e não sabemos se devemos ou não deixar gorjeta.

a vida social está na origem de vários cenários pré-definidos, para além do restaurante, seguimos um determinado guião para uma consulta médica, para a ida matinal à casa de banho, para barbear, para conduzir o carro... a maioria aprendidos de forma implícita por simples repetição e armazenados na nossa memória.

estes guiões estruturam espontâneamente os nossos conhecimentos, facilitam as nossas acções automatizando-as. o conhecimento da sequência de acções que devo desenvolver numa determinada situação evita que tenha de pensar e inventar o que devo fazer, assim a atenção que dedico a algo que já tenho automatizado é seguramente inferior permitindo que enquanto me barbeio ou faço jogging pense noutra coisa.

os guiões mentais permitem ainda inferir outras informações apelando aos conhecimentos implícitos para completar o que não está explícito numa frase. por exemplo se disser " a minha mão acaricia suavemente as suas coxas" deduzir-se-á imediatamente um conjunto de outras informações que não estão escritas mas que fazem parte desse cenário.

ps: pensavam que ia deixar o sexo de fora?

Foto: agradeço o desafio aceite por Pecado Original.

domingo, 1 de novembro de 2009

madelaine

"toda a Combray e os seus arredores, tudo isso criou contornos e solidez, saiu, vila e jardins, da minha chávena de chá..." não são precisas muitas páginas de leitura de marcel proust para encontrar estas recordações, que se iniciam num indicio improvável e casual.

" depende do acaso que o encontremos antes de morrer, ou não o encontremos nunca" neste caso, o indicio é potente, visual e gustativo. " estes bolos curtos e arredondados chamados petites madelaines (...), no instante próprio em que na minha boca cheia de migalhas do bolo toca o meu paladar, parei atento ao que se passava de extraordinário em mim. um prazer delicioso invadiu-me, isolado, sem a noção da sua causa. imediatamente as vicissitudes da vida tornaram-se indiferentes, os seus desastres inofensivos, a sua brevidade ilusória, da mesma forma que operou o amor, preenchendo-me de uma essência preciosa: ou melhor essa essência não estava em mim, eu era a própria essência".

" deixei de me sentir medíocre, contingente, mortal (...) imergirá à superfície da minha consciência essa recordação, esse instante antigo que a atracção de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, emergir, sobrelevar do meu fundo ? não sei. (...) sinto em mim algo que se desloca, que se quer elevar, algo que se desancorou a uma grande profundidade; não sei o que é mas isso sobe lentamente; sinto a resistência, e ouço o rumor das distancias percorridas (...) apenas antevejo o reflexo neutro onde se confunde o indescritivel turbilhão das cores remexidas; mas não distingo a forma, perguntar-lhe como único interprete possível que me traduza o testemunho do seu contemporaneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me diga de qual circunstância particular, de qual época do passado se trata."

"de repente a recordação apareceu (...) quando de um passado antigo, nada subsiste, depois da morte dos seres, depois da destruição da coisas, sós, mais vagos mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fieis, o cheiro e o sabor ficam ainda muito tempo, como almas a se recordar, esperando sobre a ruína de todo o resto, trazer sem hesitações sobre o sabor quase impalpável, o edifico imenso da recordação."

vou comer um pastel de belém, e esperar que... alguma memória involuntária apareça.

ps: tradução rasca eu sei, mas é o que se arranja.
marcel proust, Du côté de chez Swann (1913)