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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Arlequim

Fiz um gesto obsceno, vulgar, um pouco irreflectido... depois levantei a cabeça e reparei que alguém estava ali e viu. Apercebi-me de repente da vulgaridade do gesto e fiquei envergonhado.

Lembrei-me daquela máxima de J.P.Sartre "o inferno, são os outros". Se o olhar dos outros é na maioria dos casos inofensivo, pode também tornar-se angustiante transformando-nos em objectos sujeitos a um julgamento constante.

Se esse olhar nos dá por vezes suores frios, é no entanto essencial para a construção da nossa própria identidade e para que a exterioridade do mundo seja verificada, não seja uma ilusão, a ilusão e a alienação em que Robinson Crusoé naufrago na sua ilha deserta, mergulhou.

É também nessa falta do olhar dos outros que mendigos se deixam progressivamente desaparecer no fundo de um túnel do metro ou numa esquina da vida, e que doentes e idosos esquecidos morrem no canto da solidão e da indiferença.

É a busca desse olhar que nos faz interagir socialmente buscando a aprovação dos outros, a forma de vestir e de estar, de dizer, de pensar, buscando sermos reconhecidos, nem que seja também em forma de arlequim feito estátua.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Estimulação Intelectual

“Por uma nota de 100, uma rapariga emprestava-nos os seus discos de Bartok, jantava connosco e depois deixava-nos ficar a ver enquanto tinha uma crise de ansiedade. Por 150, podíamos ouvir rádio FM com duas gémeas. Por três notas, era o tratamento completo: uma esbelta morena judia fingia ir buscar-nos ao Museu de Arte Moderna, deixava-nos ler a sua tese de mestrado, envolvia-nos numa discussão estérica sobre o conceito que Freud tinha das mulheres e depois simulava um suicídio à nossa escolha - para alguns tipos, era um noite perfeita. Um belo esquema. Grande cidade Nova Iorque.”
Contos de Woody Allen.

Agora é a blogoesfera que nos estimula? E à borla...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Na onda

Intelectuais famosos continuam a ver no "povo" uma manada desorientada que precisa ser guiada, para seu próprio bem, dada a "natural estupidez do homem comum". Cabe assim a estes senhores criar-nos as ilusões necessárias, simples mas psicologicamente eficazes para que sejamos apenas espectadores interessados face ao que se passa mas nunca participantes para além do necessário condicionamento a que nos sujeitam na altura dos votos.

A ideia de "manada" é a mesma subjacente à ideia de "rebanho" esta veiculada pela Igreja.

O que é certo é que para nos encaixarmos no sistema, na escola, no trabalho, nas relações pessoais, na sociedade, temos que cumprir regras, ordens, e sujeitarmo-nos a fazer por vezes o que não queremos. Não podemos sair da "linha" por assim dizer, se o fizermos corremos o risco de perder e de sermos marginalizados, portanto de uma forma ou de outra acabamos por entrar na onda.

Também na onda cultural que chega através das mais variadas formas, pensada provavelmente de forma intencional, leva-nos ao narcisismo e favorece uma introspecção do ego em detrimento da nossa vontade juvenil de mudar o mundo, tornando-o num local idílico de paz e prosperidade universal tão bem descrito em qualquer discurso de qualquer candidata a miss-mundo.

Nesta onda de futilidade, apegamo-nos ás coisas superficiais da vida esquecendo progressivamente outros valores humanos mais gerais, da mesma forma que no nosso dia-a-dia não procuramos "o sentido da vida" provavelmente demasiado esmagador, antes nos distraímos e esgotamos o nosso tempo com mil e uma ocupações e relacionamentos.

Se calhar, não é assim tão mau pertencer à manada

terça-feira, 17 de março de 2009

O corpo da alma


"Cada um sai da vida do mesmo modo como se tivesse acabado de nascer...."
"A morte não significa nada para nós: quando somos, a morte ainda não chegou e quando ela chega, não somos mais"

Epicuro

“Sou unicamente corpo de nada mais, e a alma não passa de uma palavra para designar uma qualidade do corpo”
“Por detrás dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, hà um rei poderoso e um sábio desconhecido que tem por nome ´Si´. Vive no teu corpo é o teu corpo.”
“O teu ‘Si´ escarnece do teu ´Eu´.... o ´Si´ diz ao `Eu´ alegra-te, sofre, ama..então o ´Eu` procura o modo de se alegrar, de sofrer ou de amar, e é para conseguir isso que deve pensar.”
Friedrich Nietsche

“A emoção e os sentimentos constituem a base daquilo que os seres humanos têm descrito desde hà milénios como alma ou espírito humano.”
“...o amor, o ódio e a angústia....têm por base os acontecimentos neurais que ocorrem dentro de um cérebro, desde que esse cerebro esteja a interagir com o seu corpo.”

António Damásio

Algum foi condutor? 2000 anos de reciclagem de memes, mesmo ostracizadas, desvalorizadas e constantemente contrariadas pela cultura ocidental de base Judaico-cristã onde a alma assume uma dimensão divina, estas ideias sobrevivem e tomam finalmente o seu lugar...pelo menos por enquanto.
A alma é corpo e apenas isso.