terça-feira, 29 de setembro de 2009

glass ceiling

apesar da sua presença sempre crescente no mercado de trabalho as mulheres continuam minoritárias em lugares de chefia, há um conjunto de obstáculos a posições mais elevadas nas hierarquias profissionais. o fenómeno está identificado, chamam-lhe glass ceiling ou tectos de vidro, raramente são transponíveis e a ascensão na careira é em regra travada.

e todos sabemos distinguir as suas qualidades, são mais metódicas, mais concentradas, mais persuasivas são-lhes no entanto atribuídas menos responsabilidades, gerem equipes mais pequenas e são acantonadas em certas áreas, por exemplo nos recursos humanos ou na comunicação de imagem.

mesmo quando as suas carreiras são idênticas ás dos homens, tendem a patinar por volta dos 35 anos, por via da familia, dos filhos, da imagem, alteração de prioridades...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Nota de culpa

extracto da nota de culpa:

quatrocentas e trinta e uma mil setecentas e cinquenta e sete condenações por crimes contra a humanidade.
culpado com premeditação de vinte e cinco mil duzentos e quarenta e três sismos de grande magnitude (contabilizados à data) ou seja duzentos e quarenta milhões de mortos.
declarado moral e civilmente responsável de epidemias de peste e cólera,ou sejam cento e cinquenta milhões de mortos.
culpado de nove mil e seiscentas erupções vulcânicas (até a data) ou seja treze milhões de mortos.
culpado de noventa e oito milhões de inundações com premeditação (até á data) ou seja de cento e dois milhões de mortos.
apontado como responsável de vinte e oito mil tempestades, ciclones e tufões ou seja sessenta e cinco milhões de mortos.
autor confesso de sessenta e três milhões de relâmpagos que atingiram fatalmente dezasseis mil ovelhas e quinhentos e sessenta mil pastores.
culpado de setecentos e trinta e dois mil mortes por envenenamento devido à ingestão de cogumelos.
autor de publicidade enganosa. abandono do filho, e consequentemente sem direitos paternos.
responsável pelo delito de falta de assistência a mais de trezentos milhões de milhões de milhões de pessoas em perigo.

este é o nosso deus que tudo fez, que tudo controla e que tudo decide.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

na praia

linha ténue crepuscular
separa o dia da noite,
suaves ondas se espraiam
e esgotam em ciclos de espuma,
uma brisa de fim de verão
aflora-te a pele arrepiada,
rituais preguiçosos repetem-se
como um olhar no horizonte
efémero momento fugidio.

perto e longe fundem-se
na superfície desse olhar
onde adivinho pensamentos.
terei falhado a sequência
e perdido a sua essência?
terei o universo contra mim
se te pegar na mão ?

dez mil fotões de luz
por um sinal.



ps: vou de férias, divirtam-se sobretudo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

tirando a espuma

Para além das noticias diárias que constituem a espuma da politica sensacionalista, das tricas, das rasteiras, das fugas de informação, da manipulação, dos corporativismos e dos interesses inviezados, existe uma outra politica de fundo e que assenta nalguns principios que me levam a votar e a votar sempre desde que tal me é permitido sem ter faltado a um único acto eleitoral:

1) sou a favor da europa, e do aprofundamento da integração europeia;
2) sou ateu convicto e contra a manipulação espiritual colectiva;
3) a favor do estado social em contraponto com o estado mínimo;
4) a favor das liberdades individuais, onde incluo o aborto e a eutanásia;
5) favorável à substituição da fontes de energia tradicionais por renováveis não poluentes;
6) favorável ao investimento em detrimento da paralisação e do miserabilismo;
7) contra o conservadorismo medroso e a manutenção dos status quo;
8) contra a forma de fazer politica assente no medo (do presente, ou do futuro);

parece-me claro em quem vou votar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

a arte

é a qualidade estética que nos faz reconhecer uma obra de arte?
sendo a estética relativa, subjectiva e a maior parte das vezes ineligível, sob este aspecto é sem dúvida indefinível, não há descrição consensual na história ou na filosofia do que é uma obra de arte.

apenas os juristas têm uma definição rigorosa elaborada por coleccionadores, conservadores e representantes do mercado da arte em total conhecimento de causa. O que se entende juridicamente por uma obra de arte não é mais que limitar-se a indicar objectos negociáveis e não abarca nem a literatura, nem a música nem as artes do espectáculo, nem tão pouco recorre a nenhum julgamento estético. toda a noção de qualidade está ausente.

uma obra de arte define-se assim por apenas dois critérios: ela é única e produz um numero limitado, ou ela deve ser obrigatoriamente fabricada ou controlada pelo artista.

portanto qualquer objecto não reproductível pode ser um arquétipo de objecto de arte, qualquer quadro medíocre é uma obra de arte qualquer que seja o julgamento pessoal que tenhamos sobre ele.

a sua qualificação como obra de arte não depende nem do estilo nem da época, nem da notoriedade do autor apenas tem que ser "original".

ora, ser "original" é uma noção complexa que engloba noções de novidade, autenticidade e unicidade. Sendo que a novidade e a autenticidade podem ser produzidas industrialmente resta a unicidade ou dito de outra forma as "fabricas de raridades"....

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ruas da cidade



ruas da cidade são como veias
vistas das ameias sem padrão
por mais que o olhar se perca
volta sempre ao seu coração.

muitas delas são sobranceiras ao rio
num equilíbrio permanente de desafio
ao efeito da gravidade mascarada
e destes tempos da erosão mitigada.

outras exibem geometria nos jardins
sombras e esplanadas de luxúrias afins
pedaços remanescentes doutra babilónia
fragmentos revisitados da mesma história.

há ainda vielas que são becos da memória
escadarias penosas e travessas de glória
atalhos da vida, confluência e divergência
irrevogáveis cruzamentos de simples anuência.

das que conheço em todas reconheço
os mesmos segredos de outras formas
das que desconheço curioso permaneço
embora sem a inquietude de outrora.

esta aqui tem um sentido, na outra não posso ficar
quantas dessas não duvido, preparadas para amar.
por cada uma percorrida, com outras novas me deparo
percorro-as mais depressa, na ânsia do teu amparo.

ruas da cidade de ti vazias
transformam dias em anos de solidão
porque enquanto te afastas retornas
em cada esquina ao meu coração.

.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

a vulgaridade

" a vulgaridade é a água forte da mediocridade. na ostentação do medíocre reside a psicologia do vulgar; basta insistir nos traços suaves da aguarela para se ter água-forte.

... é uma acentuação dos estigmas comuns a todo o ser gregário; apenas floresce quando as sociedades se desequilibram em desfavor do idealismo. é a renuncia ao pudor daquele que carece de nobreza. nenhum trabalho original a comove. desdenha o verbo altivo e os romantismos comprometedores. sua zombaria é pouco consistente, sua palavra muda, seu observar opaco...

... repudia as coisas líricas porque estas obrigam a pensamentos muito altos e a gestos demasiado dignos. é incapaz de estoicismos: sua frugalidade é um cálculo para gozar mais tempo dos prazeres, reservando maior perspectiva de gozo para a velhice impotente...

... admira o utilitarismo egoísta, imediato, pequeno, contado. posto a eleger, nunca segue o caminho que lhes indique sua própria inclinação, senão o que lhes marcaria o cálculo dos seus iguais. ignora que toda a grandeza de espírito exige a cumplicidade do coração...um pensamento não fecundado pela paixão é como um sol de inverno, alumia, mas sob seus raios pode-se morrer gelado...

...a vulgaridade transforma o amor da vida em pulsanimidade; a prudência em covardia; o orgulho em vaidade; o respeito em servilismo. leva à ostentação, à avareza, à falsidade, à avidez e à simulação..."

em "o homem medíocre" de José Ingenieros

terça-feira, 11 de agosto de 2009

os teus lábios

dos teus lábios guardo memórias
fragmentos que contam histórias
promessas vividas intensamente
transformadas em algo recorrente.

em teus lábios tom marron
se respiras ouço o som
se suspiras sou a causa
adivinho o beijo numa pausa.

os teus lábios doces de morango
perto dos meus num passo de tango
ensaiam danças coreografadas
abrem-se como num conto de fadas.

nos teus lábios macios de veludo
desespero e espero tudo
quando neles entrego os meus
quando nos meus encontro os teus.



ps: efeitos da silly season, em breve volto à prosa...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

chamo-te imprudência

ouço-te entre dois cantos,
do grilo que me delicia
e do galo que me desperta
no resto escuto silêncio.

vejo-te entre dois mundos,
o imaginário que me extasia
e o real que me acerta
no resto observo sombra.

sinto-te entre dois toques,
o leve que me arrepia
e o brusco que me aperta
no resto abraço ausência.

cheiro-te entre dois aromas,
o puro que me inebria
e o sintético que me alerta
no resto inspiro solidão.

apesar da sombra do silêncio
e da solidão da ausência,
sei que te amo imprudência,
porque sou eu, porque és tu.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sociedade hipertexto

um hipertexto é um conjunto de textos distintos unidos por palavras comuns ou nós que os interligam. É uma estrutura com várias dimensões mas onde cada texto tem a sua própria organização, a sua sintaxe e sua gramática.O Wikipédia é um bom exemplo de hipertexto.

sociedade hipertexto, é uma metáfora para o “individuo-palavra” onde o indivíduo é a ligação entre os espaços sociais onde se movimenta, o profissional com uma “sintaxe” no trabalho com os colegas, no espaço social familiar usando outra “sintaxe”, com os amigos do desporto, com os parceiros da blogosfera, etc.

mudamos várias vezes por dia de sintaxe, de um espaço social para o outro ligando e desligando conjuntos de códigos sociais e culturais diferentes, o vocabulário, os temas, a forma divergem. quem não presenciou um profissional durão que a meio de um reunião recebe uma chamada pessoal transformando-se em cordeirinho utilizando termos que por vezes roçam o hilariante de tão improváveis?

a possibilidade de se deslocar dentro de vários espaços sociais abre uma série de potencialidades que não estão de forma igualitária acessíveis a todos. A mobilidade física e virtual torna-se assim um elemento cada vez mais importante na formação das desigualdades individuais e sociais.

a multipersonalidade que resulta, capaz de se comportar de forma diferente consoante o ambiente que frequenta implica a capacidade de gerir vários “eus” e de se inventar personagens dentro de uma temporalidade e espaço múltiplos. Confrontados com uma variedade crescente do espaços-tempos é preciso deslocarmo-nos cada vez mais rapidamente uma vez que não temos o dom da ubiquidade, o único que nos garantiria a reunificação dos vários “eus”.


no trabalho, recebendo uma chamada familiar e escrevendo este texto... quase que os reunia a todos...

terça-feira, 21 de julho de 2009

esboço


desejo beijar-te as palavras
que me aceleram o coração
quero sentir a escrita
que flui da tua mão.

deitar-te em papel craft
para fazermos um draft
cada letra linha curva
cada espaço de compasso.

escreves profundo desejo
num canto que eu não vejo
e pões-me o nome na boca
como se estivesses louca.

papel dobrado e desdobrado
suspiro de paragrafo inacabado
tesão evidente em esboço
tão fácil, antes não fosse.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Corações gastos


"...Casou três vezes para se divorciar três vezes. A culpa era só dele que se cansava de ter estranhos corpos ao seu lado. Não entendia a sua vida quanto mais a dos outros e o que começava como companhia acabava em tédio assegurado. Por vezes fala com elas por telefone. Nunca se esquecem do seu aniversário e telefonam-lhe. Uma delas manda-lhe flores, estrelícias, as suas preferidas. Nunca discutiam, viviam uma vida confortável e depois diziam que partiam, que queriam ter uma família, filhos que crescessem..."

Pedro Paixão em "Os corações também se gastam"

Abri o livro nesta página... obrigou-me a ler mais algumas... interessante.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

palavra e gesto

arrependido da palavra dita
irreflectida imatura e inacabada
conjugada de forma imperfeita
dissonante da ideia fundada.

mal entendido bem entendido
feito impossível de desfazer
realidade que se ganha perdendo
ilusão que se perde ganhando.

antes prevalecesse silencio
em vez das palavras faladas
rastilho para outras anunciadas
desfazendo alegrias partilhadas.

passados velozes desfilam
presentes venosos destilam
futuros airosos ruíram
fruto da irracional racionalização.

sonhadores, ganhadores, perdedores
ressaca, amuo, sofrimento
sucede-se o dia a noite e do nada
surge o gesto, a luz e a alvorada.

toque subtil gera arrepio
proximidade quanta intimidade
amor ganho no esquecimento
entrega dispensa entendimento.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

minuto anti prosa

estou teso e pronto, enquanto,
de actos libidinosos fazemos projectos
em pontas de línguas molhadas de afectos
durezas pontuadas suavizadas por gestos.

vou fundo no teu ventre arqueado
desejo renovado desde a puberdade
mãos percorrem, sensações ocorrem
capta o momento flash e movimento.

articulo palavras nada candentes
poderias sentir por te sentir quente
quero que não queiras, ficas pendente
e troças de mim injurias ausentes.

solto-te a língua em colos e regaços
roço-te as carnes apalpo os espaços
sinto-te nos bicos depressa hirtos
descontrolo-te o tino já descontínuo.

é todo teu, desmepertence
é toda minha, desmerecida
é tudo nosso, temporariamente
é de ninguém, definitivamente.

somos egoístas à vez
somos altruístas talvez,
procuras descargas de ondas eléctricas,
procuro jactos de combustão instantânea.

hora de prosa

sei que gostas de fazê-lo crescer na boca, mas hoje já estou pronto.

os teus olhos olham-no e não escondem o prazer que a tua mente adivinha, encostas os lábios entreabertos e a tua boca experimenta a sua dureza, sabes como dar prazer, não é difícil, gosto confesso, gosto da forma aguçada que a língua toma quando o encontra totalmente exposto, de como fica molhado e de como a tua mão me segura plena de caricias.

a minha língua fica ansiosa. o meu olfacto alerta, ambos procuram a essência em cada poro até se fixarem teimosamente nesse pedacinho de paraíso. sei muito bem como devo gerir a pressão e o toque, conheço os sinais, as contracções, onde reside esse coração alternativo onde os meus dedos se devem perder procurando, e sei que não é preciso muito...

introduzo enfim devagar, muito devagar, parando mesmo, sentindo mas resistindo ao chamamento do teu interior, centímetro a centímetro num longo percurso que vou fazendo olhando-te nos olhos, vendo a expressão do teu rosto, a boca molhada implorando mais, o prazer reluzente nos olhos e o ventre sôfrego e palpitante, viras a cabeça de olhos fechados como que a quereres captar sensações, gravá-las em memórias, enquanto te sentes cada vez mais cheia, preenchida e molhada.

ritmo e movimento, entrando e saindo no calor e na humidade do teu canal suculento, caminho que conduz ao fundo de nenhures e simultaneamente a todos os locais mais recônditos do desejo sempre imaginado e fabricado desde a adolescência.

entre os nossos ventres sinto-te quente, tão quente que poderias gozar se quisesses, troçar do mundo inteiro abandonada à luxúria, mas eu quero que ainda não queiras e reduzo, e alterno o ritmo, e reduzo outra vez, digo-te ao ouvido as coisas mais abomináveis que jamais diria se não estivesse embriagado de tesão... quase que me amaldiçoas ao mesmo tempo que me desejas ainda mais...

sentada no meu colo, os teus braços envolvem-me o pescoço, mãos percorrem as tuas costas, por vezes agarram-te a nuca por baixo dos cabelos puxo-te a cabeça para trás e as nossas línguas encontram-se, agarro as nádegas , beijo os seios de bicos hirtos puxo-os mais para fora com a língua enquanto te olho nos olhos, aperto o teu corpo e sincronizo-o com o meu num movimento único alternando a velocidade, reduzo-a drasticamente, sadicamente, quando te sinto descontrolada.

queres mais, eu sei, estavas perto, recosto-me até ficar deitado, sentada és agora dona e senhora da situação, e digo-o para o saberes, é todo teu, por momentos agarro a tua cintura e ajudo-te no movimento para logo abrir os braços, liberto-te completamente e és tu que deves impor o ritmo no teu tempo, deixar o prazer entrar e invadir-te, é altura de seres egoísta e desfrutares completamente do brinquedo dentro de ti.

abusa assim dele descontroladamente com toda a sofreguidão que precisares à medida que o teu cérebro é invadido e é todo ele pensamento fálico, sensações únicas num vai vem sensorial difuso que te percorre o corpo e finalmente sem conteres os teus sons misturados de respiração intensa o teu corpo electriza-se... e explode descarregando toda a energia acumulada em ondas sucessivas de puro prazer até ficarmos imóveis colados pelo suor dos nossos corpos sentindo o batimento dos corações e o sangue a correr contribuindo para cada contracção muscular que forço ainda dentro de ti, sinto-te assim sensível, a vibrar mais um pouco de cada vez.

viro-te e reviro-te de dois de três e de quatro, agarro a tua cintura, puxo-te para mim até ao fim, passo a minha mão pelas tuas costas agarro o teu rosto e fico assim imóvel de joelhos vendo os teus movimentos aumentarem num vai e vem curto e longo até se tornarem frenéticos quase descoordenados, o teu corpo muda de direcção forçando-me a pressionar alternadamente pontos diferentes até te concentrares naqueles que te dão mais prazer, partes para outra dimensão...

peço-te para te alongares de bruços, o meu corpo desce de encontro ás tuas costas afasto o teu cabelo e beijo a tua nuca iniciando os movimentos que sei que me levam ao fim. sou egoísta o que é que queres? agora o suor escorre-me pelo corpo enquanto me movimento desesperadamente mantendo-te presa, imóvel, na minha uretra já há muito cheia de fluídos passa o primeiro jacto, o primeiro foguetão de combustão instantânea... seguem-se duas ou três réplicas, quase que doí, não sei, a uma dor tão boa assim não se pode chamar dor.