quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

menus

no restaurante joga-se em geral um cenário imutável, ritmado por um guião canónico. actores (os clientes) sentam-se à mesa, esperam que o actor servidor traga o menu para efectuar o pedido. o menu proposto é composto por entradas, pratos principais, sobremesas e bebidas. terminada a refeição, pedem a conta, pagam e saem do restaurante, deixando ou não uma gorjeta.

este conjunto de acções faz parte dos guiões que modelam as condutas e enquadram o pensamento. pode evidentemente mudar de um país para outro, por isso hesitamos quando estamos no estrangeiro e não sabemos se devemos ou não deixar gorjeta.

a vida social está na origem de vários cenários pré-definidos, para além do restaurante, seguimos um determinado guião para uma consulta médica, para a ida matinal à casa de banho, para barbear, para conduzir o carro... a maioria aprendidos de forma implícita por simples repetição e armazenados na nossa memória.

estes guiões estruturam espontâneamente os nossos conhecimentos, facilitam as nossas acções automatizando-as. o conhecimento da sequência de acções que devo desenvolver numa determinada situação evita que tenha de pensar e inventar o que devo fazer, assim a atenção que dedico a algo que já tenho automatizado é seguramente inferior permitindo que enquanto me barbeio ou faço jogging pense noutra coisa.

os guiões mentais permitem ainda inferir outras informações apelando aos conhecimentos implícitos para completar o que não está explícito numa frase. por exemplo se disser " a minha mão acaricia suavemente as suas coxas" deduzir-se-á imediatamente um conjunto de outras informações que não estão escritas mas que fazem parte desse cenário.

ps: pensavam que ia deixar o sexo de fora?

domingo, 1 de Novembro de 2009

madelaine

"toda a Combray e os seus arredores, tudo isso criou contornos e solidez, saiu, vila e jardins, da minha chávena de chá..." não são precisas muitas páginas de leitura de marcel proust para encontrar estas recordações, que se iniciam num indicio improvável e casual.

" depende do acaso que o encontremos antes de morrer, ou não o encontremos nunca" neste caso, o indicio é potente, visual e gustativo. " estes bolos curtos e arredondados chamados petites madelaines (...), no instante próprio em que na minha boca cheia de migalhas do bolo toca o meu paladar, parei atento ao que se passava de extraordinário em mim. um prazer delicioso invadiu-me, isolado, sem a noção da sua causa. imediatamente as vicissitudes da vida tornaram-se indiferentes, os seus desastres inofensivos, a sua brevidade ilusória, da mesma forma que operou o amor, preenchendo-me de uma essência preciosa: ou melhor essa essência não estava em mim, eu era a própria essência".

" deixei de me sentir medíocre, contingente, mortal (...) imergirá à superfície da minha consciência essa recordação, esse instante antigo que a atracção de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, emergir, sobrelevar do meu fundo ? não sei. (...) sinto em mim algo que se desloca, que se quer elevar, algo que se desancorou a uma grande profundidade; não sei o que é mas isso sobe lentamente; sinto a resistência, e ouço o rumor das distancias percorridas (...) apenas antevejo o reflexo neutro onde se confunde o indescritivel turbilhão das cores remexidas; mas não distingo a forma, perguntar-lhe como único interprete possível que me traduza o testemunho do seu contemporaneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me diga de qual circunstância particular, de qual época do passado se trata."

"de repente a recordação apareceu (...) quando de um passado antigo, nada subsiste, depois da morte dos seres, depois da destruição da coisas, sós, mais vagos mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fieis, o cheiro e o sabor ficam ainda muito tempo, como almas a se recordar, esperando sobre a ruína de todo o resto, trazer sem hesitações sobre o sabor quase impalpável, o edifico imenso da recordação."

vou comer um pastel de belém, e esperar que... alguma memória involuntária apareça.

ps: tradução rasca eu sei, mas é o que se arranja.
marcel proust, Du côté de chez Swann (1913)

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

consciência

estou deitado na praia. o sol brilha e enche-me de calor. ouço as ondas e vozes longínquas de pessoas que gritam e brincam perto da água. fecho os olhos e uma doce quietude invade-me. experiência subjectiva do mais banal que existe.

entretanto embrenho-me na leitura de um livro que me absorve, rapidamente o som das ondas e das pessoas sai do meu campo de consciência, já não ouço mesmo que as ondas sonoras continuem a entrar nos meus ouvidos e os seus ecos a propagar-se nos meus neurónios. esta informação continua a ser tratada fora da minha consciência que continua embrenhada na leitura do livro.

mas ao mais pequeno ruído anormal, uma onda mais forte por exemplo, a minha atenção é imediatamente solicitada e a minha consciência desviada para esse ruído ao mesmo tempo que a leitura é interrompida. a minha consciência não pára de saltar de um centro de interesse a outro.

li algures sobre o conceito de "consciência flutuante" para exprimir este movimento incessante e encadeado do pensamento que salta em permanência de tema em tema de preocupação.

ps: para os mais atentos apenas digo que resisti a utilizar o clichê da aparição curvilinea... porque teria que mudar o conceito para "consciência ancorada"...

andar por aí

afinal... vou continuar.
gosto dos poucos amigos que aqui tenho.
gosto de partilhar pensamentos, leituras, divagações.
gosto de escrever aquilo que me apetece.
descobri que apenas me aborrecia uma certa "obrigação" de colocar novos posts, quando não tenho nada para dizer... erro meu.
portanto as coisas vão fluir daqui para a frente a um ritmo... aleatório.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Zai Jian


tudo tem um fim... chegou a vez deste blog.
agradeço a todos os que me visitaram durante estes meses, ao seu carinho e boa vontade.
a mim falta-me vontade de continuar... até um dia, sabe-se lá.
estarei sempre disponível para troca de ideias.

zai jian.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

cali

"tu étais presque belle
j´etais pas loins d´étre fidelle
notre histoire devais être um conte de fait
je m´en vais."

cali,le bordel magnifique
comprei este cd ontem um pouco por acaso depois de ouvir este bocadinho.

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

sísifo

sísifo, rei grego e homem astuto enganou deuses e prendeu a morte por uma coleira tendo provocado a ira de zeus e por isso foi condenado a carregar uma pedra até ao cimo de uma montanha, voltando imediatamente a pedra a cair, para sísifo a carregar outra vez até ao cimo , caindo outra vez, e assim por diante, uma vez e outra... para sempre.

este mito antigo sempre encantou as pessoas, pois pode-se-lhe atribuir incontáveis significados. poderia simbolizar o perpétuo nascer do sol, as ondas que se desfazem continuamente na praia, sendo o mais comum aquele que representa a nossa labuta constante para voltar a tentar perante o desencorajamento esmagador.

camus viu nele não só essa representação dos ciclos sem sentido da vida contemporanea, e porque não da restante também, mas encontrou a fuga de sísifo à mortalidade e o encontro deste com a liberdade de pensamento.

"...

... Sísifo retornando à sua pedra, neste modesto giro, ele contempla aquela série de ações não relacionadas que formam o seu destino, criado por ele, combinados e sujeitos ao olhar de sua memória e logo selados por sua morte. Assim, convencido da origem totalmente humana de tudo o que é humano, o homem cego, ansioso para ver, que sabe que a noite não tem fim, este homem permanece em movimento. A rocha ainda está rolando.

Eu deixo Sísifo no pé da montanha! Sempre se acha sua carga novamente. Mas Sísifo ensina a mais alta honestidade, que nega os deuses e ergue rochas. Ele também conclui que está tudo bem. O universo, de agora em diante sem um mestre, não parece a ele nem estéril nem inútil. Cada átomo daquela pedra, cada lasca mineral daquela montanha repleta de noite, em si próprio forma um mundo. A própria luta em direção às alturas é suficiente para preencher o coração de um homem.

Deve-se imaginar Sísifo feliz."
http://www.geocities.com/serouseja/camus/sisifo.htm
Albert Camus em "O Mito de Sísifo"

sábado, 3 de Outubro de 2009

macho latino

tive uma pequena conversa recentemente com uma amiga, e ás tantas, por qualquer motivo, também me calhou o rótulo de "macho latino".

a coisa teria passado impune dado o ambiente de brincadeira em que se inseria o "piropo" se hoje não me deparasse com um artigo da MFM na revista do expresso exactamente com este titulo. não fosse aquela conversa e possivelmente não estaria a escrever sobre este assunto.

sinceramente fiquei baralhado e sem saber exactamente qual o conceito que se tem de macho latino no ano 2009. aparentemente está em extinção... tal como o lince da malcata mas apesar disso ainda ocupa lugares importantíssimos como é exemplo o 1º ministro berlusconi...

alem disso fiquei a saber que o macho latino é aquele que passa o tempo a fazer apreciações sobre o sexo oposto do tipo "ela é boa como o milho" ou "é da atar e por ao fumeiro" o que revela ao que parece o grau de imaturidade das conversas masculinas... e é claro que as mulheres nunca têm este, ou outro tipo de conversas equivalentes... falam concerteza dos problemas serissimos da vida que levam e das suas elevadas preocupações sobre o presente e o futuro da humanidade...

é claro que sendo homem, me insiro na categoria de macho, e tendo o português como língua materna sou inevitavelmente latino, não podendo negar nenhum dos grupos referidos estou irremediavelmente no conjunto que resulta da intercepção matemática destes dois grupos exactamente a dos "machos latinos".

sendo assim, na minha condição de macho, de latino, e de conversar com os amigos ou colegas de trabalho na hora do almoço sobre mulheres, faço parte dessa torpe que a MFM acha que está em vias de extinção... logo eu que estou aqui para as curvas e durar mais umas décadas...

apenas mais uma constatação da MFM... diz que ainda existem traços do Neandertal nestes espécimes. bonito. que eu saiba ainda não foi descoberta nenhuma espécie à face da terra apenas constituída por machos...quanto muito há aí umas hemafroditas.

portanto, um pouco de conhecimento de antropologia seria suficiente para saber que existem macho latinos na mesma medida em que existem fêmeas latinas, sendo estas tradicionalmente as principais educadoras dos seus rebentos, não antevejo uma extinção a prazo (se a acusação de macho latino se resume aos parágrafos anteriores).

resta-me ir à procura de uma fêmea latina que me compreenda... será difícil encontrar?

ps1: bem sei que o assunto apenas se destina a vender revistas...penso eu de que.
ps2: será que o gosto pelo sexo está a ser confundido com alguma caracteristica latina especifica ? e os outros, os germânicos, os saxões, os indianos, os asiáticos ? são o quê? não gostam de sexo? como é que se reproduzem?

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

glass ceiling

apesar da sua presença sempre crescente no mercado de trabalho as mulheres continuam minoritárias em lugares de chefia, há um conjunto de obstáculos a posições mais elevadas nas hierarquias profissionais. o fenómeno está identificado, chamam-lhe glass ceiling ou tectos de vidro, raramente são transponíveis e a ascensão na careira é em regra travada.

e todos sabemos distinguir as suas qualidades, são mais metódicas, mais concentradas, mais persuasivas são-lhes no entanto atribuídas menos responsabilidades, gerem equipes mais pequenas e são acantonadas em certas áreas, por exemplo nos recursos humanos ou na comunicação de imagem.

mesmo quando as suas carreiras são idênticas ás dos homens, tendem a patinar por volta dos 35 anos, por via da familia, dos filhos, da imagem, alteração de prioridades...

fiel amigo

ao fim de 15 anos o meu fiel amigo deixou-me.
partilhamos todos os dias, sem excepção, a tristeza da partida, a alegria da chegada, brincadeiras, passeios, momentos descontraídos e por vezes até a almofada.
os ralhetes eram recebidos com o rabinho entre as pernas e os amuos nunca duraram mais de 30 segundos, e logo eram esquecidos com se não tivessem existido.Regra geral eram selados com um pedido em forma de brinquedo atirado aos pés.
obrigou-me a criar hábitos, rotinas e horários, que se transformaram em vazio, ausência e silêncio e que me são estranhos e desmesurados.
ao meu fiel amigo, dedico este pequeno gesto de gratidão.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Nota de culpa

extracto da nota de culpa:

quatrocentas e trinta e uma mil setecentas e cinquenta e sete condenações por crimes contra a humanidade.
culpado com premeditação de vinte e cinco mil duzentos e quarenta e três sismos de grande magnitude (contabilizados à data) ou seja duzentos e quarenta milhões de mortos.
declarado moral e civilmente responsável de epidemias de peste e cólera,ou sejam cento e cinquenta milhões de mortos.
culpado de nove mil e seiscentas erupções vulcânicas (até a data) ou seja treze milhões de mortos.
culpado de noventa e oito milhões de inundações com premeditação (até á data) ou seja de cento e dois milhões de mortos.
apontado como responsável de vinte e oito mil tempestades, ciclones e tufões ou seja sessenta e cinco milhões de mortos.
autor confesso de sessenta e três milhões de relâmpagos que atingiram fatalmente dezasseis mil ovelhas e quinhentos e sessenta mil pastores.
culpado de setecentos e trinta e dois mil mortes por envenenamento devido à ingestão de cogumelos.
autor de publicidade enganosa. abandono do filho, e consequentemente sem direitos paternos.
responsável pelo delito de falta de assistência a mais de trezentos milhões de milhões de milhões de pessoas em perigo.

este é o nosso deus que tudo fez, que tudo controla e que tudo decide.

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

na praia

linha ténue crepuscular
separa o dia da noite,
suaves ondas se espraiam
e esgotam em ciclos de espuma,
uma brisa de fim de verão
aflora-te a pele arrepiada,
rituais preguiçosos repetem-se
como um olhar no horizonte
efémero momento fugidio.

perto e longe fundem-se
na superfície desse olhar
onde adivinho pensamentos.
terei falhado a sequência
e perdido a sua essência?
terei o universo contra mim
se te pegar na mão ?

dez mil fotões de luz
por um sinal.



ps: vou de férias, divirtam-se sobretudo.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

tirando a espuma

Para além das noticias diárias que constituem a espuma da politica sensacionalista, das tricas, das rasteiras, das fugas de informação, da manipulação, dos corporativismos e dos interesses inviezados, existe uma outra politica de fundo e que assenta nalguns principios que me levam a votar e a votar sempre desde que tal me é permitido sem ter faltado a um único acto eleitoral:

1) sou a favor da europa, e do aprofundamento da integração europeia;
2) sou ateu convicto e contra a manipulação espiritual colectiva;
3) a favor do estado social em contraponto com o estado mínimo;
4) a favor das liberdades individuais, onde incluo o aborto e a eutanásia;
5) favorável à substituição da fontes de energia tradicionais por renováveis não poluentes;
6) favorável ao investimento em detrimento da paralisação e do miserabilismo;
7) contra o conservadorismo medroso e a manutenção dos status quo;
8) contra a forma de fazer politica assente no medo (do presente, ou do futuro);

parece-me claro em quem vou votar.

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

a arte

é a qualidade estética que nos faz reconhecer uma obra de arte?
sendo a estética relativa, subjectiva e a maior parte das vezes ineligível, sob este aspecto é sem dúvida indefinível, não há descrição consensual na história ou na filosofia do que é uma obra de arte.

apenas os juristas têm uma definição rigorosa elaborada por coleccionadores, conservadores e representantes do mercado da arte em total conhecimento de causa. O que se entende juridicamente por uma obra de arte não é mais que limitar-se a indicar objectos negociáveis e não abarca nem a literatura, nem a música nem as artes do espectáculo, nem tão pouco recorre a nenhum julgamento estético. toda a noção de qualidade está ausente.

uma obra de arte define-se assim por apenas dois critérios: ela é única e produz um numero limitado, ou ela deve ser obrigatoriamente fabricada ou controlada pelo artista.

portanto qualquer objecto não reproductível pode ser um arquétipo de objecto de arte, qualquer quadro medíocre é uma obra de arte qualquer que seja o julgamento pessoal que tenhamos sobre ele.

a sua qualificação como obra de arte não depende nem do estilo nem da época, nem da notoriedade do autor apenas tem que ser "original".

ora, ser "original" é uma noção complexa que engloba noções de novidade, autenticidade e unicidade. Sendo que a novidade e a autenticidade podem ser produzidas industrialmente resta a unicidade ou dito de outra forma as "fabricas de raridades"....

quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

ruas da cidade



ruas da cidade são como veias
vistas das ameias sem padrão
por mais que o olhar se perca
volta sempre ao seu coração.

muitas delas são sobranceiras ao rio
num equilíbrio permanente de desafio
ao efeito da gravidade mascarada
e destes tempos da erosão mitigada.

outras exibem geometria nos jardins
sombras e esplanadas de luxúrias afins
pedaços remanescentes doutra babilónia
fragmentos revisitados da mesma história.

há ainda vielas que são becos da memória
escadarias penosas e travessas de glória
atalhos da vida, confluência e divergência
irrevogáveis cruzamentos de simples anuência.

das que conheço em todas reconheço
os mesmos segredos de outras formas
das que desconheço curioso permaneço
embora sem a inquietude de outrora.

esta aqui tem um sentido, na outra não posso ficar
quantas dessas não duvido, preparadas para amar.
por cada uma percorrida, com outras novas me deparo
percorro-as mais depressa, na ânsia do teu amparo.

ruas da cidade de ti vazias
transformam dias em anos de solidão
porque enquanto te afastas retornas
em cada esquina ao meu coração.

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