domingo, 1 de novembro de 2009

madelaine

"toda a Combray e os seus arredores, tudo isso criou contornos e solidez, saiu, vila e jardins, da minha chávena de chá..." não são precisas muitas páginas de leitura de marcel proust para encontrar estas recordações, que se iniciam num indicio improvável e casual.

" depende do acaso que o encontremos antes de morrer, ou não o encontremos nunca" neste caso, o indicio é potente, visual e gustativo. " estes bolos curtos e arredondados chamados petites madelaines (...), no instante próprio em que na minha boca cheia de migalhas do bolo toca o meu paladar, parei atento ao que se passava de extraordinário em mim. um prazer delicioso invadiu-me, isolado, sem a noção da sua causa. imediatamente as vicissitudes da vida tornaram-se indiferentes, os seus desastres inofensivos, a sua brevidade ilusória, da mesma forma que operou o amor, preenchendo-me de uma essência preciosa: ou melhor essa essência não estava em mim, eu era a própria essência".

" deixei de me sentir medíocre, contingente, mortal (...) imergirá à superfície da minha consciência essa recordação, esse instante antigo que a atracção de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, emergir, sobrelevar do meu fundo ? não sei. (...) sinto em mim algo que se desloca, que se quer elevar, algo que se desancorou a uma grande profundidade; não sei o que é mas isso sobe lentamente; sinto a resistência, e ouço o rumor das distancias percorridas (...) apenas antevejo o reflexo neutro onde se confunde o indescritivel turbilhão das cores remexidas; mas não distingo a forma, perguntar-lhe como único interprete possível que me traduza o testemunho do seu contemporaneo, do seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me diga de qual circunstância particular, de qual época do passado se trata."

"de repente a recordação apareceu (...) quando de um passado antigo, nada subsiste, depois da morte dos seres, depois da destruição da coisas, sós, mais vagos mas mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fieis, o cheiro e o sabor ficam ainda muito tempo, como almas a se recordar, esperando sobre a ruína de todo o resto, trazer sem hesitações sobre o sabor quase impalpável, o edifico imenso da recordação."

vou comer um pastel de belém, e esperar que... alguma memória involuntária apareça.

ps: tradução rasca eu sei, mas é o que se arranja.
marcel proust, Du côté de chez Swann (1913)

8 comentários:

Felina disse...

Não te esqueças de fechar os olhos quando saboreares o pastel de belém... vais sentir melhor ... o cheiro... e o sabor...

A Silenciosa disse...

Guloso?

Um pecado ......único? ou um de muitos?

Se um doce te provoca sensações tão...."intensas" e "transcendentes", que nada se interponha entre o vulgar e as suas ...gulas :)

Beijo

intimidades disse...

pronto tou com desejos

Jokas
paula

Vulgar disse...

Felina,

e já agora um cafezinho a acompanhar a viagem...

um beijo

Vulgar disse...

A Silenciosa

gula, preguiça, luxúria... qualquer deles me garante lugar no inferno.

A intensidade das sensações também está ligada à receptividade... às vezes basta estarmos sintonizados.

Vai uma queijadinha de azeitão?

Um beijo

Vulgar disse...

Paula,

espero que não seja de pasteis.

um beijo

A Silenciosa disse...

Voltei só para te fazer um reparo (que mania a minha) em Azeitão são tortas, queijadas são em Sintra.

Aceito qualquer uma das duas ( as duas não pode ser, ficam armazenadas nas ancas)

Beijo

Vulgar disse...

aí as ancas... falha imperdoável, confundir tortas com queijadas.
beijo